domingo, 29 de julho de 2007

A consciência de Zeno, ops, de Lelec

El sueño de la razon produce monstruos (Francisco de Goya)

Zeno começou a escrever a partir de uma recomendação médica:

“O médico com quem falei a esse respeito disse-me que iniciasse meu trabalho com uma análise histórica da minha propensão ao fumo:

– Escreva! Escreva! O que acontecerá então, é que você vai se ver por inteiro!”


E eu, por que escrevo?

Ao contrário do anti-herói de Ítalo Svevo, não fumo, nem recebi conselho médico para que escrevesse sobre o que se passa pela minha cabeça.

Por que então, eu escrevo?

Há muitas razões. A primeira delas é importante: porque eu quero.

Há também outras explicações. Por exemplo, para Camus, escrever era uma forma de lutar contra a opressão. Eis aqui uma motivação que pode me servir. Escrevo para buscar minha liberdade e lutar contra a tirania. Qual tirania? Aquela que advém dos fantasmas com quem temos que conviver: a impotência política, as frustrações afetivas, as imposições da religião, o peso das escolhas mal feitas, a miserabilidade da condição humana.

Sei que escrever não me tornará livre dos espectros que me assombram. O corvo de Poe, sei bem, continuará aqui no meu ombro, gralhando “Never more! Never more!”

Ao menos, contudo, enquanto escrevo terei a sensação de ser livre e o consolo tolo de que faço algo pela minha liberdade. Foi assim com Graciliano Ramos: "nos estreitos limites a que nos coagem a lei e a gramática, ainda podemos nos mexer". Vou tentar me mexer entre as fronteiras em que estou irremediavelmente circunscrito. Escrevendo, poderei ainda me encontrar com algumas boas idéias. Ou com algumas besteiras gloriosas. Tanto faz. O que importa mesmo é escrever.






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