sexta-feira, 20 de março de 2009

Como assim, senhor Bispo?

Cena do filme “Jesus Camp”



Ora, ora, ora.

Quando se achava que tudo o que deveria ter sido dito – e não dito – acerca do assombroso caso da menina pernambucana engravidada pelo padrasto, eis que o Bispo Dom José Cardoso Sobrinho concede uma entrevista à Veja, na edição de 18 de março.

Dias depois, o Papa faz uma afirmação equivocada sobre a prevenção da AIDS.

Sinto-me pouco à vontade para comentar textos ou missivas eclesiásticas, publicadas em veículos da Igreja Católica, como o Osservatore Romano. Tais documentos dirigem-se aos fiéis de Roma e devem ser por eles debatidos.

Contudo, quando o Papa deixa de tratar de teologia e doutrina católica para falar sobre um enorme problema de saúde pública que atinge crentes e não crentes, ele está voluntariamente se imiscuindo em um debate em que opinões teológicas se esvaziam diante do que foi comprovado por um série de trabalhos epidemiológicos.

É um dever respeitar silenciosamente um posição religiosa que não é a nossa. Não nos cabe julgá-la.

Mas declarar que a distribuição de preservativos agrava o problema da AIDS não é matéria da teologia ou da fé, é um dado que pode ser objetivamente analisado fora da esfera dos dogmas religiosos.

Quando as declarações papais são repercutidas por um jornal conservador até a medula, “mais ortodoxo do que pijama de listra” e “do que caixa de Maizena” (copyright "Analista de Bagé"), então é porque o Papa, de fato, voluntariamente deixou o espaço em que suas palavras têm que ser respeitosamente ouvidas, por crentes e não crentes.

Semelhantemente, quando um oficial da Igreja fala a uma revista que não pertence à mídia religiosa, ele está convidando não-fiéis ao debate. É nesse espaço, o do diálogo público, cujo primeiro passo foi dado pelo próprio Bispo, que se inscreve este texto.

A entrevista do Bispo é muito boa.

Boa para esclarecer algumas coisas.

Em primeiro lugar, o Bispo revela que tentou, sim, impedir a interrupção da gravidez:

"Nós tivemos várias reuniões com nossos advogados para saber o que poderíamos fazer para impedir o aborto. Pedimos audiência ao desembargador, e ele ligou para várias varas da infância e da juventude para tentar fazer algo. (...)

Quando eu soube do caso, passei o dia todo, das 7 da manhã às 10 da noite, trabalhando na tentativa de evitar a operação. Mais tarde, eu estava me dirigindo ao primeiro hospital onde a menina foi internada, no interior do estado, para tentar convencer a família a desistir do aborto (...)

(...) Então, nós fizemos tudo o que foi possível."

É importante que fique claro o esforço do Bispo em impedir o procedimento. No dia 08 de março, Reinaldo Azevedo escreveu, a propósito do comentário do presidente Lula sobre o caso (“Recentemente vocês viram o problema da menina de Pernambuco. É mais do que absurdo, como é que você pode proibir a medicina de cuidar de uma menina de 9 anos?") :

"Quem foi que tentou impedir a medicina de fazer o que quer que seja?

TRATA-SE DE UMA MENTIRA." (O grifo é do Reinaldo Azevedo)

Pois é.

Reinaldo Azevedo foi desmentido pelas palavras do próprio Bispo, na mesmíssima revista na qual trabalha. O mentiroso foi ele, não o Lula.

A entrevista também é muito boa em ilustrar que sociedade almeja o fundamentalismo religioso.

Uma sociedade em que crianças têm seu espírito crítico e sua razão seqüestrados na mais tenra infância, como diz o Bispo:

“Seria tão bom se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham uso da razão mas já sabiam rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria.”

Nem Schopenhauer explicitou tão bem a maneira como religiosos moldam a consciência de garotos. O filósofo alemão foi mais sutil:

“A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a proteção do governo, das figuras mais respeitáveis e importantes. Mais do que isso, o enorme privilégio de poder gravar sua doutrina na mente das pessoas quando elas são crianças e, com isso, as idéias se tornam quase congênitas.”

Mas o zelo religioso não se ocupa apenas das crianças – e já seria deveras ignomioso se esse fosse seu único efeito colateral.*

O alcance pretendido é muito mais amplo, é reeditar a Genebra de Calvino, é pautar toda a sociedade pelo texto sagrado. É o que diz o Bispo:

"(...) a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. E a lei de Deus não permite o aborto. Então, se uma lei humana está contradizendo uma lei de Deus, no caso, a que permitiu a operação, essa lei não tem nenhum valor."

A Bíblia tem ensinamentos preciosos e passagens muito inspiradoras. Mas desejar que a legislação civil seja submetida às Escrituras é temerário, para dizer o mínimo.

Do contrário, teremos que abolir a igualdade civil entre os sexos (I Coríntios 11:7-9; 14: 34-35; Efésios 5:22-24, I Pedro 3:1), riscaremos do dicionário a expressão “tolerância religiosa” (Êxodo 32:27; Deuteronômio 7:1-5), maltrataremos o estrangeiro (Deuteronômio 14:21), condescenderemos com a escravidão (Efésios 6:5, I Pedro 2:18) e por aí vai...

Mas a entrevista trata, sobretudo, do aborto.

O direito ao aborto é o mais complexo problema bioético que existe. Sua complexidade supera a de outras questões espinhosas, como os transplantes de órgãos e a eutanásia.

Minhas leituras sobre o tema e minhas experiências na medicina não me permitem adotar uma resposta que me seja definitiva sobre o tema. Reconheço como válidos e merecedores de atenção muitos pontos levantados por defensores e opositores ao direito ao aborto.

Sei que o simples fato de ter dúvidas sobre o assunto me expõe aos ataques dos que são contra ou que são a favor do procedimento. Assumo esse risco, não por uma suposta covardia de quem gostaria de ficar em cima do muro, mas por honestidade intelectual.

Contudo, minhas reflexões me permitiram chegar a algumas conclusões que me são bem consolidadas.

Uma delas é a de que é crime o aborto após 12 semanas de gestação, considerando-se uma mãe sadia e cuja manutenção da gravidez não lhe acarrete severo risco de morte. Não o endosso e sou enfaticamente contra sua legalização. (Não me refiro aos fetos anencefálicos – escrevi sobre isso aqui).

Outro aspecto sobre o qual me vejo convencido é sobre o total descabimento do paralelo entre o aborto e o holocausto judeu. Esse argumento, comumente evocado por opositores ao aborto, foi suscitado pelo Bispo D. José – e de forma acintosa:

"Quero lembrar o que aconteceu na II Guerra Mundial. Hitler, aquele ditador, queria eliminar o povo judaico e dizem que ele chegou a matar 6 milhões de judeus. Não podemos esquecer esse delito."

Como assim, senhor bispo, “dizem que” Hitler chegou a matar 6 milhões de judeus ?

É aviltante referir-se ao Holocausto com uma expressão que supõe entendê-lo como um fato de historicidade questionável – assim faz um colega de batina, Williamson.

“Dizem que” a Nike obrigou o Brasil a perder a final da Copa de 98.

“Dizem que” um ET apareceu em Varginha.

Uma referência como essa mereceria uma vigorosa manifestação da comunidade judaica brasileira (sorte do bispo que essa entrevista dificilmente ganhará amplitude internacional, senão, ele teria mais coisas a explicar...).

Além do mais, senhor bispo, Hitler não cometeu um “delito”: ele comandou o morticínio em que foram efetivamente assassinados de forma cruel seis milhões de judeus.

Isso não é um “delito”.

“Delito” é quando o Joãozinho rouba uma laranja na feira.

A Shoah não foi um “delito”. Perseguir, torturar, encarcerar e matar milhões de pessoas é genocídio, é crime contra a humanidade.

Ninguém fala que “dizem que” Hitler tentou aniquilar os judeus e trata o Holocausto como um “delito”, a não ser que não tenha consciência plena do que realmente foi a barbárie nazista.

Ao comparar o aborto à Shoah, o bispo nos leva a questionar quais são as referências éticas e históricas que balizam suas opiniões.

Simone Veil tem referências absolutamente claras: a mulher que capitaneou a lei que legalizou o aborto na França é sobrevivente do mais terrível campo de concentração nazista, Auschwitz, e perdeu os pais e o irmão nos campos da morte.

A jornalista da Veja perdeu uma bela oportunidade de trazer à tona o exemplo de Simone Veil e de perguntar ao Bispo se ele teria coragem de, olhando nos olhos dessa dama de enorme dignidade, dizer que são eticamente equivalentes a interrupção da gravidez em uma menina de nove anos violentada pelo padrasto e o assassinato da família de Veil em um campo de concentração nazista.

Por fim, um trecho tremendamente revelador da entrevista se deu quando a repórter pergunta ao Bispo como se chama a menina vítima do abuso.

Não houve resposta, só um hesitar patético.

"A menina... Como se chama? (A pergunta é dirigida às cinco pessoas que acompanharam a entrevista a pedido do arcebispo; ninguém sabe responder.)"

A escassez de humanismo do Bispo está epitomada no desconhecer o nome da crainça.

A não-resposta é emblemática.

Procurar saber o nome da pessoa é o primeiro passo de quem se dispõe a amar, de quem se abre para um gesto de compaixão. É a preocupação inicial de quem se toca genuinamente pelo sofrimento do outro: quem é o ser que sofre? Como se chama? Qual o seu nome?

Mas, no fundo, o fato do bispo desconhecer o nome da menina não causa estranhamento: para religiosos cegos, a estrita aplicação da lei divina está sempre acima do ser humano, nem que este esteja submerso na mais terrível dor, no mais tenebroso drama pessoal.


* PS: Nunca um documentário me causou uma perturbação tão acachapante quanto Jesus Camp, uma produção norte-americana de 2006 sobre a doutrinação infantil, entre evangélicos dos EUA. Por razões que podemos imaginar, um filme como esse nunca passaria no circuito de cinemas brasileiros. Veja aqui uma amostra desta bomba.








20 comentários:

flávia disse...

Eu geralmente não costumo intervir em tópicos cujo teor envolva religião ou derivados,mas faça-me o favor,a Igreja está envolvida até o pescoço em sangue,lembremos da Inquisição e derivados e escândalos sexuais-pedofilia.É uma instituição sanguinária,corrupta,anacrônica, conservadora, e anti-humanista.Ainda bem que houve uma digamos "atualização" secular, senão aquela garota de 9 anos e os médicos e provavelmente teriam transformado-se em cinzas num Auto de Fé!
Entrei aqui por causa do blog do Zé,mas se escrever isso lá,ele me trucida.A história da Igreja está mergulhada num mar de sangue de inocentes,e como ele é professor de história,provalvelmente iria longe essa estória.

Abraço,

Sandra Leite disse...

Léo,

Não leio a Veja. Questão de saúde, eu não suporto. Mas a entrevista com o bispo foi boa heim?
Talvez porque eu seja mulher, talvez porque a maternidade seja tão mais presente em mim que no bispo, eu me revoltei com o caso. A menina deixa de ser o foco. Afinal, quem é ela? que direitos ela tem? A vida dela foi afetada? Peraí, ela tem vida? Ah, descobriu-se que ela é a culpada. Ela e a mãe. Desde Eva, as mulhres são culpadas.
O aborto, tema esse super delicado, tomou o lugar de outro, tão delicado quanto: o estupro. especialmente do padrasto, um homem (???) que deveria zelar pela vida de uma menina de 9 anos que começou a ser abusada sexualmente aos 6 anos. Ah, pois, é, cade o estuprador? Quem fala dele? Ele é o criminoso desse caso, mas com a retórica do bispo ele não é tão cruel. Seu crime é até menor que o aborto. Esse sujeito, o tal estuprador, tirou a vida dessa menina. Não tenho dúvidas e como mulher me pergunto como ela está. Pergunto se ela tem medo quando um homem se aproxima dela. Pergunto se ela chora. Mas isso não é problema. É coisa de mulher.

O caso cruel do estupro da menina de 9 anos, gravida de gêmeos e abusada desde os 6 anos, foi o a noticia que mais circulou no dia internacional da mulher. Talvez porque mulher seja isso, pelo menos para alguns seres.
Só mais uma nota: todos os dias, crianças são estupradas. Isso é revoltante, mas nossa sociedade não ve, nao fala e nao ouve. Afinal, se alguém tem a culpa....
E assim caminah a tal humanidade que de humana tem pouco.

Um texto que traduziu o meu sentimento foi o da Miriam Leitão. Coloquei no IeBN e aqui o link: http://issoebossanova.blogspot.com/2009/03/o-coracao-e-razao.html

Digo tudo isso e agora afirmo: sou cristã e acredito na soberania de Deus.

Desculpa o desabafo, Léo

Beijos


PS: deixei um meme para você participar lá no IeBN, caso queira. Fique à vontade!

Camila M. disse...

Adorei conhecer o blog, mesmo que tenha sido num tema tão sensível.

Parabéns!

Lelec disse...

Oi queridas leitoras…

Flávia : seja muito bem-vinda a esta margem ! Eu o Zé discordamos nesse caso, como você sabe. Realmente, a história da Igreja cristã é repleta de passagens cruéis. Isso contudo, não é o foco principal da minha “resistência” a ela. Sem querer soar hipócrita, há sangue na história de praticamente toda instituição qe abraçamos: no Estado, na política, nas ideologias. Meu ponto central de divergência é que as instituições religiosas são, na sua maioria, propagadoras de uma ideologia muito pouco humanista, que é uma tirania existencial. Mas isso é assunto para outro texto... Beijo e volte sempre.

Camila: obrigado pela sua presença e pelo elogio. Nesta margem, navegamos em temas polêmicos e gostamos de uma boa discussão. É isso que nos enriquece. Volte sempre e não tenha receio em expor o que pensa, mesmo que em discordância frontal com o blogueiro. Beijo.

Sherazade, ma chère, entendo seu desabafo e sua indignação. Como não entendê-los? Mais uma vez, convergimos na opinião. Vejo esse caso como um emblema da situação da mulher no Brasil, no mundo. É espantosa a misoginia recalcada (e outras vezes, explícita mesmo) na relação das religiões cristãs com a sociedade. Estou em dívida com você, não pude ir ao Isto é Bossa Nova nesta semana. Muito obrigado pelo carinho, pela audiência e pelas referências bondosas de sempre! Quanto ao meme, você não pede: manda! O próximo texto desta margem será dedicado ao meme... Aguarde por revelações bombásticas. Beijo!

flávia disse...

Léo,mas aí que é o ponto,descambar para fanatismos e proselitismos.A bíblia é uma inestimável fonte de distorções morais e mentais.No meu ver a questão de fé é o verdadeiro problema,discussões que envolvem crenças e religiões as tornam uma temeridadade.E como encaixar a fé que inflama o crente,e cega o indivíduo?Como explicar que nos EUA,as aulas de biologia venham a ser substituídas por aulas de criacionismo?
PS1:Como hoje estou de ressaca(das bravas)talvez meu texto saia meio esquizofrênico,já me desculpando.
PS2:Depois que fiz um curso sobre Darwin com o prof.Luiz Felipe Pondé,virei agnóstica,mas antes tive uma baita deprê.

beijo,

Fernando Sampaio disse...

Lelec,
O Papa prega um método de combate à aids muito mais eficiente do que a camisinha, a abstinência antes do casamento e a fidelidade depois dele.
Dizer que com camisinha tá tudo bem e ninguém é de ninguém como as campanhas brasileiras fazem é uma temeridade também.
Quanto ao bispo de Olinda, desconheço o lado médico do caso, mas se eu fosso médico hesitaria muito em matar duas crianças para salvar uma. E quanto ao padrasto eu arrancaria pessoalmente seu fígado com as mãos se o visse pela frente.
E esse Jesus Camp é tão pavoroso quanto aqueles vídeos do Hamas ensinando as crianças a odiarem judeus.
Abraço

Zé Costa disse...

Olá Lelec!

A Flávia foi injusta comigo. Não costumo, como você sabe, trucidar nem os inimigos, quanto mais os amigos. Oh, Flávia, por quem me tomas, minha cara?

Ainda estou devendo uma resposta à sua tréplica e agora com esse seu post sobre a entrevista do bispo, vejo que terei mais pontos a acrescentar às nossas divergências nesse assunto. Ainda bem que somos do tipo que divergimos, mas nos respeitamos.

A Igreja - eu não sou católico, mas presbiteriano - continuará a defender seus valores. É um direito dela. Na minha concepção de mundo, matar um bebê é tão horroroso, acho mesmo que é pior, quanto violentar uma criança.

A legalização do aborto não tornará o ato de se interromper uma gravidez uma ação banal. A questão ética permanecerá.

A boa notícia é que a maioria dos brasileiros, a despeito de tanta propaganda, continua ardorosamente considerando o aborto um ato de crueldade e um crime nefando.

Um abraço.

Neilza Barreto disse...

Leonardo,

Vim visitar seu blog em função do meme que Sandra Leite me convidou. Sou navata nestes assuntos de blog.

Chegando aqui: qta surpresa!Adorável surpresa! Amei seu blog: inteligente, intrigante, direto...enfim, muito bom gosto!

Quanto ao tema em tela pensei e repensei para responder. Mas inquieta que sou resolvi responder!

Vamos lá... Concordo sim, ninguém enfatizou a menina em si.E isso muito me incomoda. Em nenhum momento ninguém trouxe para discussão a maneira como esta menina se apropriou da situação. Quais foram os sentimentos da menina frente ao acontecido? Como ela elaborou psicologicamente a gravidez? Ou: como ela elaborou o aborto? Já que houve a ruptura de uma vida que em nela havia. E a menina, como está? Como era sua vida antes deste fato? Onde estão os responsáveis por ela?

A nossa Constituição Federal no artigo 227 fala de uma coisa chamada Doutrina da Proteção Integral. Nesta, o Estado, a família e a sociedade são responsáveis pela proteção de crianças e adolescentes. Onde estava o pai desta menina que não desconfiou dos abusos do padrasto? Seria ele presente na vida da menina? E a mãe? Saberia ela dos abusos do padrasto e fingia não ver? E nós, sociedade, como conseguimos dormir com muitas destas meninas por aí? E o Estado, então, nem se fala...

O foco se deslocou para questão religiosa. Por sinal, quando o tema é religião prefiro mesmo me calar, pois acho que todos podem ( e devem) ter um posicionamento.
Mas como vc citou alguns trechos bíblicos, cabem algumas colocações:

1. Qualquer texto deve ser lido em seu contexto maior. E a Bíblia como um texto, tem seus contextos.E só assim que compreendemos este ou aquele enfoque bíblico. Ademais se faz necessário um ingrediente básico: a fé!Só por ela que compreendemos algumas coisas.Assim, só no terreno da fé algumas verdades são legitimadas, fora deste terreno não há sentido para a Bíblia.

2. Uma coisa são os religiosos( e seus podres poderes) outra bem diferente é a fé.Muitos se utilizam de interesses mais diversos para alterar o significado do cristianismo. Signifiado este pautado no amor ao próximo como regra primeira.

"Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração"
(Mt 13, 28 e 29.)

É isso!

Gostei! Gostei muito deste seu blog!

Se puder, passe lá no meu:
"Então, amo como resposta".

Beijinhos!
Neilza Barreto

Lelec disse...

O bom de temas polêmicos é que todo mundo comenta e a discussão fica boa.


Flávia: A Bíblia tem passagens muito bonitas. Não digo que seja um livro fonte de distorções mentais e morais. O Livro de Eclesiastes, por exemplo, é de extrema beleza. O problema são as pessoas que a lêem literalmente. O problema não está no livro, mas na leitura que se faz dele.
Não considero que o darwinismo seja incompatível com a fé cristã. Há homens muito inteligentes que conciliam fé e ciência. Um bom exemplo é Francis Collins, geneticista de renome que é um cristão piedoso, mas aceita a evolução. Ele escreveu um bom livro, chamado “A Linguagem de Deus”. Dê uma olhada, vale a pena. Beijo.


Fernando: Não é verdade que o método da abstinência é mais eficiente. Isso é mentira. Na teoria, funcionaria bem, mas a campanha pela abstinência é tremendamente falha. Há dúzias de estudos epidemiológicos sérios que comprovam isso. Trata-se de um fato cientificamente comprovado. E contra fatos não há argumentos, como diz aquele provérbio grego. Já escrevi sobre isso aqui.
Aliás, tanto não funciona que a Igreja não consegue manter a abstinência nem dentro dos conventos e mosteiros.
Não conheço as campanhas brasileiras contra AIDS. Não conheço campanha no mundo que diga que o preservativo torne o usuário invulnerável ao HIV. Não acredito que se faça isso no Brasil.
A equipe médica não matou duas crianças. Ela interrompeu a gestação de dois embriões. São coisas diferentes.
Quanto a Jesus Camp, o filme é mesmo assustador. Em determinado momento, a líder do acampamento diz que os evangélicos devem fazer com suas crianças o mesmo que os muçulmanos fazem com as deles: treiná-las para a guerra santa. Igualzinho ao Hamas, como você bem observou. Abraço!


Zé Costa: Você tem razão: você nunca trucidou ninguém por discordar de você. Se não, eu já teria sido feito picadinho, he he. E concordo inteiramente com você: a legalização do aborto não resolve o problema ético envolvido na questão. Por isso, acho fundamental que se discuta abertamente o assunto, como nós estamos fazendo. Abraço!


Neilza: Obrigado pela visita e pelos elogios! Volte sempre! Você tem toda razão: a menina foi deixada de lado pelos que se opuseram ao aborto. Isso ficou claro, de forma emblemática, no fato do bispo não saber sequer como ela se chamava.
Concordo que fé e religião são duas coisas diferentes. Não misturo essas duas dimensões. Mas a religião revela muito do conteúdo da fé. E vice-versa.
Quanto à Bíblia, trata-se de um livro escrito ao longo de muito tempo, por várias mãos. É uma obra heterogênea. Por isso, dá ensejo a tantas interpretações diferentes. Não “tirei o texto do contexto por pretexto”, como diria o pastor da Igreja que eu freqüentava. Verifique as citações que fiz e você verá que a mensagem das passagens são exatamente aquelas a que faço referência. Beijo e volte sempre!


Aproveitando a discussão, lanço uma pergunta aos amigos leitores, especialmente ao Fernando e ao Zé Costa. É para nossa reflexão, não para provocação.
Os opositores ao aborto têm uma regra simples: se o óvulo foi fecundado, já há vida, já há uma criança em desenvolvimento. A partir da fecundação, todo aborto significaria, portanto, matar uma pessoa.
A pílula anticoncepcional e o DIU (dispositivo intra-uterino), dois métodos contraceptivos muito utilizados, agem, entre outros mecanismos, impedindo a nidação do óvulo fecundado no útero. Nesse sentido, são abortivos.
Todas as mulheres que usam pílula ou DIU já cometeram aborto, voluntariamente, só não viram o embrião ser expelido ou retirado.
Concordam que as mulheres que usam DIU ou pílula equivalem-se às que interromperam a gravidez em um consultório médico? O que acham do assunto?

Fernando Sampaio disse...

Lelec,
Na Africa o único país que tem conseguido sucesso na luta contra a Aids é Uganda, onde a campanha oficial foca justamente a abstinencia e a fidelidade conjugal.
Como pode ser mentira que a abstinencia seja mais eficiente do que o uso da camisinha????
O que a Igreja prega é que camisinha sem uma boa dose de moral também não vai ajudar muito. Você acha que o governo federal distribuir camisinhas a adolescentes de doze anos nas escolas não passa uma mensagem de "ah agora você podem fazer o que quiser"?
Eu não entendo disso, mas pelo que sei a pílula inibe a ovulação. É diferente da pílula do dia seguinte que pode ser considerada abortiva. Como você disse é um problema complexo. Cada mulher deve seguir sua própria consciência e formação moral.
A essência do que eu e você pensamos sobre aborto está nesta sua frase:
"A equipe médica não matou duas crianças. Ela interrompeu a gestação de dois embriões. São coisas diferentes."
Eu, e acredito que o Zé também, achamos que não há diferença nenhuma.

Silvia disse...

Esse caso é complicado e prefiro não opinar. Quanto ao filme, só tenho uma coisa a dizer: alguém precisa avisar a esse pessoal que Jesus não é surdo.

flávia disse...

Pronto,o Zé entrou na discussão,agora o negócio vai esquentar(Zé voce sabe que eu te amo,e te respeito,né?),fui criada católica até a começar a pensar,mas respeitar não é pactuar ou tolerar calada,temos algumas divergências irreconciliáveis.Essa excomunhão,nem "divertida" foi,não há mais suplícios, nada de fogueira,nem execrações.Zé,meu caro ,a Igreja não reconhece que o outro possa pensar de modo diferente, quer impor a sua verdade aos outros, como se a única verdade verdadeira.Usa até esse meio como estratégia política.É de uma arrogância sem fim.Querer que todo mundo seja igual a eles, querem que adorem o mesmo deus que eles, que se comporte como eles acham certo,é uma verdadeira escravidão mental,e ainda tem a desfaçatez de fazerem lobby para tornar oficial o ensino religioso (católico) nas escolas públicas,argh.Sei que fatalmente,o tópico vai dar em religião.Mas tudo bem,eu aguento.
Leonardo)adoro esse nome,foi de ex-namorado meu,e um gato!)qualquer livro sagrado(bíblia, corão,ou torah)norteiam o indivíduo como sua fonte de inspiração,nem sabem separar o que é bom e o que é ruim.E tem mais,as explicações das religiões nem incompletas são,são mesmo estúpidas,fazem a fé virar um fanatismo fatal.Quanto a Bíblia,porque será que só algumas foram incluídas e outras não,e os textos apócrifos?

beijos aos dois.
ps:ACHO QUE VOU COLOCAR UM TÓPICO DE RELIGIÃO NO MEU BLOG,VAI SER LOOONGO,MUITO LONGO.

Lelec disse...

Continuando a conversa…

Silvia : Seria muito bom se você manifestasse sua opinião. Sei que todos aprenderíamos um pouco. Beijo.

Fernando: Obrigado por evocar o exemplo de Uganda. A campanha lá utilizada não é do tipo “abstinência apenas”. A campanha ugandense incentiva a abstinência, a redução da promiscuidade (sendo fiel ao parceiro) E o uso do preservativo. Em suma: conjuga o preservativo com uma orientação comportamental. Não exclui a camisinha, mas o inclui no famoso “ABC”. Não há nenhum país no mundo que tenha reduzido os índices de infecção por HIV sem fazer também campanha do uso do preservativo.

A Igreja não prega o uso da camisinha com “uma boa dose de moral”. A Igreja só aceita o sexo dentro do casamento. Para quem não é casado, a Igreja prega a abstinência e pronto. Você sabe bem disso.

Se a Igreja advogasse o uso da camisinha, em uma prática sexual consciente e responsável, mesmo que não conjugal, eu estaria de acordo com ela. Mas não é isso o que ela apregoa.

Se o Papa tivesse dito que a camisinha sozinha não resolve o problema da AIDS, eu concordaria com ele, porque é isso mesmo que mostram os estudos epidemiológicos.
Mas não foi isso o que ele disse: ele falou que a camisinha AGRAVA o problema da AIDS. Isso é mentira.

As campanhas que focaram apenas a abstinência, sem métodos contraceptivos, tiveram como resultado um aumento nos índices de DST, de gravidez precoce e de abortos.

Nem nos mosteiros e conventos a abstinência sexual é obedecida.

Não precisa ser especialista em reprodução humana para entender a questão que coloquei. A pílula, de fato, inibe a ovulação. Mas ela TAMBÉM inibe que o óvulo fecundado se instale no útero. Por isso, a pílula é tão eficiente, pois ela combina vários mecanismos anti-concepcionais diferentes. Alguns chamam isso de micro-aborto ou de aborto invisível. Pesquise isso e você verá o que estou falando. Por isso, nossas esposas que usam pílula já cometeram aborto. Só não viram o embrião ser expulso, como em um procedimento cirúrgico. Em suma: se você acha que “embrião”, “óvulo fecundado” e “criança” são a mesma coisa, você deveria também ser contra o uso do DIU e da pílula.

O Júlio Severo pode ser acusado de várias coisas, mas de uma ele não pode: a de ser incoerente. Ele é contra o aborto. Acredita que se houve fecundação, já há vida. Por isso, a pílula e o DIU são abortivos. Ele fala claramente sobre isso aqui (vale a pena ler):

http://juliosevero.blogspot.com/2002/12/abortos-no-silncio.html

Atenção quando você diz “cada mulher deve seguir sua própria consciência e formação moral.” Esse é o mesmíssimo argumento dos que defendem a legalização do aborto.

Abraço,

Lelec

Anônimo disse...

Não sou médico. Sou apenas um professor de história, sem especialização, mestrado ou doutorado. Diferente das pessoas que abrilhantam este blog, mal falo o português, que dirá o francês, o inglês, o alemão e até o holandês. Sou um ostrogodo. Um Alarico dos sertões. Um vira-lata!

Você pode considerar o meu argumento e talvez até seja mesmo, frágil. Mas vou expô-lo assim mesmo. O aborto criminoso, aquele que uma mulher pratica para impedir seu filho de nascer, ocorre quando ela se descobre grávida e decide interromper a gravidez. Não importa se ela descobriu na primeira ou na vigésima semana de gestação.

O DIU, de fato, ao tornar o endométrio mais escamoso dificultando a nidação, no extremo - bem extremo - pode ser considerado uma espécie de aborto, do ponto de vista técnico. A pílua, só se for aquela conhecida com a do "dia seguinte". As outras, não vejo em quê elas seriam abortivas.

Encaro os métodos contraceptivos - e aqui discordo da idéia da Igreja - como uma decisão da família de planejar a quantidade de filhos. Portanto, legítimo. Meu medo Lelec é que com a legalização do aborto, as pessoas utilizem esse procedimento como controle de natalidade. Isso me assusta!

Agora, uma hipótese, no sentido vulgar do termo. Vamos supor que o método contraceptivo falhe. Que a mulher decubra que engravidou, mesmo se precavendo. O que ela faz? Nesse caso, para mim, ela deve ter o filho, porque tirá-lo, para mim, seria um crime.

Ademais, até concordo que exista gravidez indesejada, mas jamais um filho será indesejado.

PS: Que negócio é esse D Flávia de dizer que me ama? D Costa não gostou nada, viu? Rsrrsrsrsrss

Zé Costa

Barone disse...

Muito bom Leonardo. A entrevista à Veja é esclarecedora e aterradora, ao mesmo tempo. Também tratei deste tema recentemente. Um abraço.

Lelec disse...

Respondendo...

Oi Zé, obrigado pela sua mensagem. Ela é muito importante e é sempre muito bem vinda. Vou explorar um pouco o aspecto "abortivo" dos métodos anti-concepcionais no post seguinte. Espero que o novo texto esteja no ar até amanhã. Abraço.

Barone: Muito honrado com sua presença! Volte sempre! Abraço.

flávia disse...

Caro Leonardo,
Uso DIU(MIRENA)que age por 5 anos(nem menstruo),conforme esse Júlio Severo,devo ter muitos micro-abortos.E é um direito meu exercer a minha sexualidade,e se quero ou não ter filhos.Acho que é de minha consciência prevenir uma gravidez indejada.Minhas convicções morais ou religiosas são minhas,e se vou arder no fogo do inferno por isso,se fôr excomungada,e o escambau,não estou nem aí.A postura da Igreja Católica em relação a isso é retrógrada, autoritarista,burra,e acéfala.
E Zé,é isso o que eu penso,pode me trucidar,tá?

Abraços,

flávia disse...

Zé, essa resposta é especial para voce,te amo no bom sentido,como um amor fraternal,sublime e puro,como a da Igreja.Sua esposa não precisa ficar com ciúmes,rs.
Capice?

Fernando Sampaio disse...

Sinto muito mas tive que escrever essa:

http://deslumieres.blogspot.com/2009/03/e-o-papa-tinha-razao.html

Lelec disse...

Continuando a conversa:

Zé: Não acredito que a liberalização do aborto faria com que o mesmo seja massivamente usado como método contraceptivo. Em boa parte da Europa, as mulheres têm direito ao aborto, mas continuam usando métodos anticoncepcionais. O aborto é sempre um procedimento marcante e as mulheres preferem evitá-lo ao máximo e, por isso, continuam usando pílulas e outros meios para prevenir a gravidez. Só recorrem ao aborto quando alguma coisa realmente deu errado. Abraço.

Flávia: Não é só você que "vai para o inferno" por usar DIU. Tenho muitas conhecidas e até gente da minha família que o emprega. A companhia será boa. Beijo!

Fernando: Obrigado por me assinalar seu texto. Vou deixar minha opinião no seu blog. Abraço.