domingo, 11 de outubro de 2009

Mudança

Olá pessoal,

Esta é a última postagem aqui no blogger.

A partir de hoje, A Terceira Margem do Sena se muda com mala e cuia para seu novo endereço, no condomínio O Pensador Selvagem:

http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/

Todas as novas postagens serão feitas lá. Já tem texto novo para a inauguração da nova casa. E os textos antigos foram todos transplantados, assim como os comentários.

No tempo apropriado, esta página no blogger será desativada.

Vocês são todos muito bem-vindos nessa nova etapa do Terceira Margem do Sena.

Agradeço sinceramente a todos que me acompanharam aqui e que me ajudaram a construir este espaço.

É isso.

Apertos de mãos pros rapazes e beijos para as meninas.

Obrigado. Inté.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Fervor casto




Vou ter que assumir minha ignorância: já tinha lido sobre o Deus Criador (Gênesis 1: 1-31), sobre o Senhor dos Exércitos que comanda vitórias militares (Josué 11:8), sobre o Jeová regulamentador da alimentação (Levítico 7:23), sobre o Pai que lança doenças mortais (II Samuel 24:15), sobre o Iaveh que escolhe e sustenta tiranos (Romanos 13:1), sobre o incentivador de genocídios (Deuteronômio 7: 1-5) e até sobre o Senhor que consente que duas ursas matem 42 crianças por chamarem de careca um de Seus profetas (II Reis 2: 23-25). ELE tem mesmo maneiras estranhas de exercer sua onipotência. Mas essa de Deus gestor futebolístico eu não conhecia, confesso.

Foi Caroline Celico, esposa do Kaká, quem revelou mais essa entre as infindáveis competências divinas.

Caroline se tornou pastora da Igreja Renascer. Em um vídeo que está rodando a internet, a moça diz que, apesar da penúria financeira mundial, Deus deu dinheiro ao Real Madrid para que o clube contratasse seu marido. Segundo Caroline, a ida do casal para a capital espanhola teria propósitos missionários, para fundar uma Igreja Renascer na cidade.

No vídeo, a pastora Caroline pratica toda a panóplia do manual do pregador picareta: as piadinhas para descontrair e cativar a audiência, as mãos erguidas, a aparência muito bem cuidada, o tom suave da voz (o “sotaque de crente”) que cresce em paroxismos de fervor quase colérico.

Tento imaginar qual seria a reação de um espanhol que passa dificuldades para sustentar sua família após ter perdido o emprego no rastro da crise econômica. Que ouve uma menina milionária dizer que Deus, apesar da crise, deu 65 milhões de euros para que seu marido trocasse de clube. Que escuta a jovem pastora dizer que foi o jejum do fiéis que contribuiu para o novo contrato de Kaká. Que ouve Caroline dizer que mais importante do que o dinheiro, do que a qualidade de vida e do que a mudança para Madrid é a alegria por abrir uma filial da Renascer, seita cujos “Apóstolos” estão às voltas com problemas nos tribunais.

Haja cinismo, haja insensibilidade. É um acinte.

Então, em plena crise, Deus prefere concentrar dinheiro no Real Madrid para contratar um jogador de futebol ao invés de compartilhar 65 milhões de euros com os quase três milhões de desempregados espanhóis? Não seria muita futilidade de Sua parte? Não teria algo menos supérfluo e mais urgente nos dias atuais?

Será que ela estaria radiosa se o Kaká recebesse uma proposta para jogar no Ch'ŏngjin Chandongcha da Coréia do Norte, com salário mensal de 200 dólares? Se for o desafio missionário o que ela considera mais importante, esse seria muito maior em Pyongyang do que em Madrid.

Mas quem faz perguntas assim são pessoas que se preocupam minimamente com a origem e com o fim do dinheiro que lhe passa pelas mãos. Questões desse tipo não parecem importar muito a Caroline Celico. Se assim não fosse, ela se indignaria com o fato de seu marido ter sido por muito tempo assalariado de Silvio Berlusconi, dono do Milan. Não entregaria seu dinheiro a uma igreja que não se responsabilizou por indenizar as vítimas do desabamento do templo em São Paulo. Não se tornaria pastora de uma seita cujos líderes estão sendo processados por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato (além de terem sido presos nos EUA).

Caroline não se ateve a falar do novo contrato do marido. Microfone em mãos, ela falou sobre sua opção de ter se casado virgem.

Muitos diriam que a moça é corajosa por, nos dias atuais, assumir tal postura e tal decisão. Na verdade, o que explica seu discurso não é a coragem, mas a vaidade. No meio evangélico, os códigos são outros. A pessoa que resiste e vence a tentação, que persevera inabalável no seu compromisso com Deus é vista como mais sintonizada com a vontade do Altíssimo: atingiu uma espiritualidade mais consistente, mais pura, invulnerável às vicissitudes da carne. Só quem “anda no Espírito” (para usar a linguagem paulina) atinge esse patamar. Na teologia do Apóstolo Paulo, essa é a pessoa na qual abundam os frutos do Espírito e que crucificou a carne e suas obras (Efésios 5: 16-25). Tal santidade atrai muita admiração e respeito entre os pares. Esse tipo de discurso em que crentes dão testemunho relatando histórias pessoais em que sublinham o quão difícil foi superar a tentação (ou a adversidade ou o pecado) e que só o fizeram pela misericórdia divina (e nada pelas próprias forças) tem muito pouco – ou nada – de humildade. É apenas uma maneira de dizerem a si mesmos e aos outros o quão são bons, especiais, o quão próximos estão da perfeição e de Deus. (Trata-se do contra-exemplo de outro tipo de narcisismo que também grassa no meio evangélico: o de sublinhar devassidões impublicáveis para ressaltar a sempre mais extraordinária graça divina, em desacordo a Romanos 5: 20,21 e 6: 1-8).

A afirmação de que mais “importante do que o dinheiro e a mudança de cidade é a alegria de poder ser missionária em Madrid” também se encaixa nessa perspectiva pseudo-espiritual. É um exemplo “bonito” que toca os miseráveis que lotam Renasceres Brasil afora: o de que a moça bonita, milionária, casada com o galã dos gramados e morando na Europa, dá pouco valor às “coisas do mundo”. Afinal, “tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (I João 2: 16, 17). O que são preciosas a Caroline são as coisas “espirituais”. Não seria que ela deseja ardentemente se convencer disso e por isso o repete tantas vezes?

Por outro lado, Caroline talvez seja um exemplo público e visível de como o recalque sexual seja o combustível (Freud chamou isso de sublimação) que leva tantos jovens ao fervor evangélico nas Américas. Dos EUA ao Brasil, passando por Guatemala e Honduras, o fundamentalismo religioso do qual Caroline é representante tem atraído multidões de jovens. Tanto recalque, é claro, não gera apenas fanatismo entre jovens, mas também adultos infantilizados, adolescentes medrosos, mulheres histéricas e outros tantos indivíduos sádicos, frustrados, perversos, deprimidos, neuróticos e cheios de problemas psicossomáticos. Além, é claro, de motivo de risadas para piadistas do mundo inteiro, como a trupe do Monthy Pyhton, que debochou dos “abstêmios”, na figura do cavaleiro Sir Galahad, the Chast.

Como se não bastasse, na minha ínfima experiência pessoal, as pessoas mais chatas que já conheci advogam ferrenhamente a virgindade. E boa parte dos indivíduos mais divertidos e interessantes que conheço são avessos à castidade e a regras comportamentais rígidas e inflexíveis.

Por isso tudo, foi com grande surpresa que soube que a Juliana Paes processou o jornalista José Simão, que disse que “a Juliana Paes é da casta das gostosas. Aliás, a Juliana Paes não é nada casta! A Juliana Paes é da casta das nada castas!”

Eu ficaria ofendido se ele tivesse me chamasse de casto, e não o contrário. Mas não deixa de ser interessante que a mulher que está brigando para não ser chamada de incasta seja a mesma que já fez uma boa dúzia de ensaios sensuais (entre eles, um para a Playboy), que todo ano desfila como madrinha de Escola de samba, que declarou ter deixado de ser virgem aos 18 anos (muito antes de se casar...) e que já tenha até sido flagrada em um evento púbico (ops, público) sem calcinha (foto aqui).

Por que é tão importante para uma mulher ser vista como casta, mesmo quando todas as evidências depõem contra?

Segundo o primatologista Frans de Waal, a valorização da castidade feminina e a motivação do controle masculino sobre a sexualidade da mulher surgiu quando nossos ancestrais deixaram de ser nômades: começou aí uma longa história de misoginia, submissão feminina e de pavor/ódio à sexualidade das mulheres(*). As origens do simbolismo que reveste a castidade estão arraigadas na sociedade humana. São mesmo justificadas em textos fundadores: segundo o Pentateuco, por exemplo, na invasão da Terra Prometida, o exército de Israel foi ordenado por Deus a matar todas as mulheres estrangeiras que “já conheciam homem”, enquanto as virgens deveriam ser poupadas para bel prazer dos conquistadores (Números 31: 17,18; leia também Deuteronômio 22: 13-21 e I Coríntios 7: 36,37).

A reação de Juliana Paes e a estapafúrdia decisão favorável do juiz – muitos séculos depois dos nossos ancestrais na savana africana e dos escritores da Torah – são sintomas de que “castidade” ainda tem valor fulcral na nossa consciência coletiva.

E não deixam de ser sinais de que o discurso fanático de Carolines e Kakás ainda ganha corações e mentes. Eles estão vencendo o jogo.



(*) Frans de Waal desenvolve longamente essa idéia no interessantíssimo livro “Eu, primata”, onde também esclarece outros aspectos da sexualidade humana.



PS: Antes tarde do que nunca, uma musiquinha do Raul (com Marcelo Nova) para a Caroline, Hernandes, Macedo e tantos outros...




domingo, 29 de março de 2009

The Lancet: a "estupidez militante" strikes again


Distribuidores de preservativos masculinos (e femininos), em Paris



O Prof. Enio Cardillo Vieira (Bioquímica), de quem fui aluno de graduação e de iniciação científica, ensinou-me a fazer uma das perguntas mais importantes da minha vida: “onde você leu isso?”

Ele sempre lançava essa indagação (em um ritmo que não mudava, marcando bem cada palavra) quando um estudante lhe questionava coisas do tipo: “por que chopp faz crescer a barriga?”. Nos segundos em que o rapaz gaguejava, o professor ainda emendava: “se você leu isso em uma publicação científica correta, a gente fica aqui na Universidade e debate o assunto. Mas, se você leu isso na Veja, na Istoé, no Estado de Minas ou em um outro lugar desses, a gente vai pro boteco, pede uma cerveja e joga conversa fora.”

As descrições do método de pesquisa e dos resultados que sustentam uma assertiva são apropriadamente abordadas em uma boa revista científica. Se a metodologia foi correta, se a conclusão é uma dedução lógica dos resultados encontrados, então o trabalho recebe crédito da ciência. Se a assim enunciada “verdade” não emergiu do laborioso método científico, se a afirmação não é sustentada por experimentos e observações, se não foi discutida e revisada por especialistas do assunto, então ela não será aceita como cientificamente verdadeira.

Eis um importante ponto de diferença entre o cristianismo e a ciência. Segundo o filósofo Michel Onfray, “o gênero evangelista é performativo, ou seja, ele cria a verdade; trata-se de uma linguagem poderosa, pois a simples enunciação cria o que anuncia.”

Quem diz algo sobre o “mundo observável” e que não tem respaldo do método científico será contestado. Isso vale para todo mundo.

Vale, inclusive, para o Papa. O dogma da infalibilidade papal não o exime de fundamentar cientificamente o que ele fala sobre um fato não-metafísico.

Quando o Sumo Pontífice discorre sobre a Transubstanciação, por exemplo, a ciência não se manifesta. Trata-se de um assunto da teologia católica, que deve ser debatida pelos fiéis de Roma e pelos pensadores católicos. Não me meto nisso.

Mas a relação deixa ser essa quando o Papa, por iniciativa própria, fala sobre um assunto que não é matéria de teologia, mas de saúde pública, campo em que há um exaustivo número de dados e de informações oriundos de trabalhos epidemiológicos que devem necessariamente ser levados em consideração.

Assim sendo, não é simplesmente por furor anti-católico que cientistas condenaram a afirmação papal de que a “distribuição de camisinhas aumenta o problema da AIDS”. É apenas porque essa afirmação não tem substrato científico. Qualquer líder mundial de grande visibilidade que a fizesse seria criticado.

Não se trata também, de “discutir religião” – pelo mesmíssimo motivo que Galileu não estava “discutindo religião” quando contestou a Igreja no que dizia respeito à órbita terrestre no sistema solar. Nem é "usar a voz da ciência para silenciar ou esmagar o debate”, como esperneia Reinaldo Azevedo: teologia se discute com teologia, ciência se discute com ciência.

Por isso tudo, a alegação do Reinaldão de que a reação observada à frase do Papa foi fruto da “estupidez militante” , das "falanges de ódio" à Igreja, das “hienas” que estão fazendo dos católicos “os novos judeus do mundo” é desonesta e só pode ser entendida na sua retórica pueril, solipsista, de quem ainda não superou a etapa psicanalítica do narcisismo primário.

Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho etiquetam qualquer discordância a Bento XVI como produto dos esquerdistas empedernidos, com ímpetos comunistas. É um truque besta (para usar a expressão olavoniana), que tem como objetivo pintar uma realidade político-social bicromática, que lhes serve para aglutinar leitores e admiradores na direita paranóide. Olavo e Reinaldo (sozinhos e mais ninguém, é claro) representam a inteligência, a democracia, a verdade, o “jornalismo independente”, “corajoso”, “não alinhado com a metafísica politicamente correta” (palavras do tio Rei). Do outro lado, ficam os petralhudos idiotas, anti-democráticos, anti-constitucionalistas, visceralmente anti-católicos, que querem varrer a cristandade do planeta. As olavetes e reinaldetes acreditam piamente nos seus profetas e na sua mensagem: “vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos pela esquerdopatia mentecapta e depravada, eu vos aliviarei”.

Contudo, a contestação ao que o Papa declarou sobre os preservativos não veio de uma oposição monolítica, mas de vozes com as mais diferentes colorações políticas. Houve, é claro, a crítica dos partidários do comunismo e de gente estúpida. Mas será que todos que criticaram o Papa incluem-se nessa turma desprezível? O Chicago Tribune, o New York Times, o Times, o Washington Post, El País, Telegraph, Financial Times, El Clarín, Figaro, Le Monde, BBC, todos são estúpidos? Todos alinhados com comunistas? Tudo não passou de uma ação orquestrada por um Grande Irmão que quer subjugar o mundo ao totalitarismo comunista? ‘Tá tudo dominado! Agora eu fiquei com medo...

A reação veio, inclusive, dos próprios católicos, o que prova que criticar a declaração papal não é sinônimo de ateísmo, agnosticismo ou de ódio figadal à Igreja. Uma sondagem entre os católicos franceses indicou que 43% deles querem a renúncia do Papa e 85% deles querem que a Igreja modifique sua posição sobre os métodos anticoncepcionais. Fiquemos assim: os cientistas contestam uma frasesinha do Papa, sobre o efeito da camisinha na epidemia da AIDS; os católicos franceses desejam logo a renúncia de Bento XVI. Quem tem mais virulência anticlerical?

Na sexta-feira, foi a vez de uma das mais importantes revistas médicas do mundo condenar a declaração do Papa. Alinhando-se à “estupidez militante”, o Lancet (aqui o texto) diz que a afirmação do Sumo Padre é atroz, além de cientificamente falsa; com firmeza, apela a uma retratação do Papa. Por que o tio Rei não encara um “red and blue” com o editorial do Lancet? (“Primeiro tem que aprender inglês”, alfinetaria Idelber...).

É improvável que venha a retratação de Roma. Nem precisa. A Igreja já deu a entender que sabe que a declaração foi equivocada. Do contrário, o porta-voz do Vaticano, Pe Federico Lombari, não teria tentado adaptar a frase papal, dizendo que o Papa dissera, na verdade, que o preservativo pode agravar o problema da AIDS.

Dias depois, no Osservatore Romano, o Vaticano ainda reconheceu que o preservativo e as campanhas do tipo ABC, ainda que não sejam o que Roma preconiza, produziram resultados espetaculares na luta contra a AIDS no continente africano. Reinaldo Azevedo omitiu essa informação aos seus leitores.

Se o Papa tivesse dito que o preservativo não resolve o problema da AIDS, ou que é necessária uma reflexão sobre o comportamento sexual, apelando a uma prática sexual responsável e consciente, ninguém teria chiado. Eu mesmo concordaria plenamente.

É evidente que a camisinha não resolve o problema da AIDS. Tampouco nenhum cientista a considera um escudo invulnerável, ou a panacéia que livrará o mundo do HIV ou que deva ser tida como “uma nova ética”, como acusa tio Rei.

Mas é falso dizer que a distribuição de preservativos aumenta o problema – nunca é demais lembrar, foi exatamente isso o que o Papa disse. É esse o ponto do debate.

A essa altura, a única coisa que poderia provar que o Papa está certo seria um artigo epidemiológico em que ficasse demonstrado que a distribuição maciça de preservativos resultou em um número maior de soropositivos ou de óbitos por AIDS, em uma dada população.

Esse trabalho não existe.

Não há nenhum estudo que mostre que o uso de camisinha e sua distribuição aumentam o número de casos, de mortes ou de gastos médicos decorrentes de AIDS. Reinaldo Azevedo não assume isso. Antes, toma como verdade inquestionável as declarações do especialista Edward Green (Universidade de Harvard). Reinaldo assume o médico norte-americano como autoridade incontestável. Se Reinaldo comparasse o número de trabalhos de Green com os números de sua colega de Veja, Profa. Mayana Zatz (USP), especialista em genética de doenças neuromusculares, Reinaldão saberia o que é uma verdadeira autoridade científica. Green tem cerca de 25 artigos sobre AIDS, na base PubMed. A Profa. Zatz tem mais de trezentos (aqui a lista).

Acontece que Green, nem na declaração à National Review, nem na coluna que ele assina hoje no Washington Post, apresenta evidências de que o preservativo exacerba o problema da AIDS. É nisso especificamente que a declaração papal é falsa. Green, portanto, não prova que o Papa está correto. Ressaltar a observação (já bem estabelecida na literatura médica) de que a distribuição maciça de preservativos não reduziu como esperado os índices de AIDS na África subsaariana é totalmente diferente de dizer que a camisinha agrava a epidemia.

Há várias hipóteses para explicar por que a facilitação do acesso aos preservativos não reduziu os índices de infecção por HIV na África negra, enquanto que a mesma medida surtiu grande efeito na Tailândia, por exemplo. A hipótese de Green é que, na África negra, ocorre uma compensação de risco (julgando protegidas pelo preservativo, as pessoas se expõem mais, incorrendo na promiscuidade). Houve um estudo (não conduzido por Green) que foi desenhado especificamente para analisar o fenômeno “compensação de risco”. O trabalho, publicado em 2001, confirmou que o fenômeno ocorre, mas sua magnitude é tão reduzida que não supera o benefício da distribuição de condoms.

Todos os consensos de especialistas (como o da Science de 2008, citado por Green) salientam o acesso fácil à camisinha como parte importante no combate à epidemia de AIDS. O próprio Green ressalta isso na conclusão de sua coluna no Washington Post.

As campanhas que se mostraram as mais eficazes na redução da incidência de HIV foram aquelas que conjugaram um incentivo à abstinência sexual, à fidelidade e ao uso de preservativos (método ABC). Essa não é a posição da Igreja, como ela mesma assume. A diretriz de Roma é orientar as pessoas a só praticarem sexo conjugal. Aos não-casados, a Igreja prega a abstinência – algo que não é seguido nem em mosteiros.

As campanhas que focaram apenas na abstinência e no sexo marital falharam – nos EUA, políticas assim, incentivadas por Bush, resultaram em aumento no número de DST, de AIDS e de gravidez na adolescência.

Reconhecer esses dados é dever de todos os líderes, religiosos ou não, envolvidos no combate à AIDS. Jornalistas honestos e conscienciosos de sua missão de informação pública deveriam igualmente fazê-lo. Negar os fatos, desqualificar histrionicamente os interlocutores e pinçar uma declaração de um cientista a uma publicação leiga é desonestidade intelectual. Além do mais, como bem lembra o editorial do Lancet, é uma afronta ao incansável trabalho de milhares de católicos engajados em organizações humanitárias que se dedicam a combater a AIDS em rincões pobres do mundo.

Brigar contra a evidência dos fatos é, essa sim, a verdadeira estupidez militante.




PS: Como se não bastasse, o tio Rei certa vez falou que “rock depois dos 25 anos é surdez ou debilidade mental.” Dá para levar a sério um caro que escreve isso? Surdo eu não sou; logo, tio Rei, o “débil mental” aqui lhe deixa "Bigmouth strikes again", dos Smiths. Ah, eles são britânicos. Como o Lancet.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Reinaldo Azevedo, malabarista


Angeli (clique para ampliar)



Sempre gostei de malabaristas. Fico espantado com a habilidade que têm para manter as bolinhas girando no ar, sem cair. Como é que conseguem? Por mais que uma bolinha escape, por mais que uma saia da órbita, eles sempre conseguem se recuperar e não deixar o objeto cair.

Acho que é por isso que eu sou um assíduo leitor do Reinaldo Azevedo. É incrível o contorcionismo de que ele é capaz para tentar manter suas idéias rodopiando, ainda que precariamente.

Quando se trata de defender o Papa, seus esforços malabarísticos são regiamente demonstrados. E, convenhamos, o tio Rei tem tido fartas oportunidades para mostrar seus dons acrobáticos. Um dia, o Papa passa a mão na cabeça de um Bispo negacionista. Depois, a Igreja condena o aborto de uma menina de nove anos que foi estuprada em casa e que estava grávida de gêmeos. A seguir, o Sumo Padre diz que a distribuição de camisinhas agrava o problema da AIDS.

A polêmica pode mudar, mas o malabarismo é sempre o mesmo: tentar adaptar os fatos ao que o Papa falou. Se o Papa é infalível, e se os fatos o contradizem, os fatos é que estão errados.

Hoje, 26 de março de 2009, Reinaldo supera seus próprios antecedentes de desonestidade intelectual e de cegueira ideológica – e olha que esses já eram deveras marcantes.

O tio Rei tenta contextualizar o que o Papa disse, suavizando a declaração sobre o efeito da distribuição de preservativos na epidemia de AIDS, afirmando que, na verdade, o Sumo Pontífice “disse que o problema poderia até se agravar.”

Mentira cabeluda, como diria minha avó.

O Papa não disse isso. O que o Papa falou está gravado e filmado. Está no site do Vaticano, em diversos idiomas, inclusive em bom português. O Papa declarou que “não se pode superá-lo (o problema da AIDS) com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema”.

Ao mudar as palavras evocadas pelo Papa, Reinaldão está fazendo como os agentes do Grande Irmão, em 1984, que mudavam a historiografia, adaptando-a a uma verdade que fosse interessante. Se a Oceania era inimiga da Eurásia e passa a ser aliada, então basta pegar todos os livros de história e reescrevê-los, dizendo que a Oceania sempre foi aliada da Eurásia. Mudam-se os fatos para que eles sustentem a mensagem a ser defendida.

A afirmação do Papa está tão contrária ao que foi evidenciado por uma série de estudos epidemiológicos, que o próprio Vaticano voltou à questão, divulgando um documento no Osservatore Romano em que reconhece que a distribuição de camisinhas foram importantes na redução dos índices de infecção por HIV no continente africano, quando conjugada à incitação à abstinência e à fidelidade ao parceiro nas campanhas “ABC”. O Vaticano assume, inclusive, que essa campanha é contrária às diretrizes que Roma prega aos seus fiéis, mas que, nem por isso, deixa de ser eficaz.

Por que razão o Vaticano retomaria o assunto, se considerasse que a declaração do Papa era definitiva e absolutamente correta?

A Cúria Romana preocupou-se em esclarecer o tema porque sabe que a declaração de que “a distribuição de camisinhas aumenta o problema da AIDS” é equivocada. Se assim não a considerasse, não teria tornado à questão.

Por que o Reinaldo não comenta esse recente documento do Vaticano?

Talvez porque a notícia tenha saído no Figaro, conservador e de direita, ao qual ele não poderia imprecar uma acusação do tipo “um jornaleco manipulado pela mídia esquerdista politicamente correta”.

Não interessa ao tio Rei ressaltar que há gente da direita que discorda da posição papal. Ele quer fazer crer que todas as manifestações contrárias à opinião de Roma são da esquerda anti-democrática. Ele enche seu blog e vende seu livro com base em paranóias desse tipo.

A seguir essa peculiar linha de raciocínio, o Figaro é de esquerda, porque não concorda com o que o Papa disse. Sobra até para a Veja, a julgar pelo que vem escrevendo Antônio Ribeiro em seu blog.

O Reinaldo Azevedo vai continuar a escrever pérolas do tipo “há coisas que você jamais vai ler na imprensa brasileira porque, dada a sua “isenção” de propaganda, às vezes letal para a inteligência e a verdade, pouco importa a consideração de uma autoridade científica ou religiosa se o que elas dizem não coincide com a metafísica politicamente correta.” É divulgando idéias assim que ele atrai leitores, como se ele fosse o único bastião da democracia constitucional, a solitária voz que defende os princípios democráticos do Estado de direito. Vox clamantis in deserto. O profeta.

Não somente Reinaldo Azevedo etiqueta todos os que o contestam como esquerdista boçal (vulgo petralha), como também os chama de estúpidos. Eis o que ele fala da reação da mídia à declaração papal:

"A estupidez militante logo entendeu, ou fingiu entender, que Sua Santidade contestara a eficiência do preservativo para barrar a transmissão do vírus."

Será mesmo que apenas discordar do Papa torna a pessoa um idiota completo, como ele sugere?

Será que todo mundo que criticou a declaração papal é “estúpido militante” ?

Reinaldo deve se querer como a última reserva de inteligência e de integridade do jornalismo mundial, visto que esmagadoramente todos os importantes jornais do mundo, da esquerda à direita, contestaram o que o Papa disse.

No texto de hoje, Reinaldo destaca uma citação de Edward Green, responsável pelo Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS, ligado à Universidade de Harvard.

Em entrevista à repórter Kathryn Jean Lopez, da National Review, Green diz que “o Papa está certo”, ou melhor, “a distribuição de preservativos, em determinadas populações, não é efetiva no combate à AIDS”, por causa de um fenômeno denominado “compensação de risco” (as pessoas seriam mais promíscuas, imaginando que a camisinha torna a pessoa invulnerável ao HIV).

Green efetivamente disse isso.

Green é, efetivamente, um especialista no que diz respeito à epidemiologia da AIDS.

Tenho por costume respeitar quem sabe mais do que eu. Green certamente sabe muito mais do que eu sobre a epidemiologia da AIDS.

Mas não é por isso que não vale a pena verificar a literatura técnica e conferir o que o próprio Green publicou em revistas científicas.

Uma pesquisa bibliográfica no portal PubMed mostra que o que Green evoca é uma hipótese, que é pouco apoiada pelos experts do tema.

Pesquisei pelos artigos científicos escritos por Green na base PubMed (aqui o resultado). Ele tem cerca de 25 artigos publicados sobre AIDS. Dois desses trabalhos foram publicados no Lancet, uma das mais importantes revistas médicas do mundo. Os outros trabalhos foram publicados em revistas com fator de impacto bem mais modesto.

O próprio Green não ratifica sua hipótese nos artigos científicos que escreveu. Ao contrário. Em artigo no AIDS and Behavior, Green enfatiza que a camisinha é parte fundamental no combate ao HIV no continente africano:

“it makes epidemiological sense to address all three ABC behaviors rather than to promote only one or two components of “ABC.” (1)

Em artigo no reputado Lancet, Green co-assina um texto que diz:

“(…) the ABC (Abstain, Be faithful/reduce partners, use Condoms) approach can play an important role in reducing the prevalence of HIV in a generalised epidemic, as occurred in Uganda. All three elements of this approach are essential to reducing HIV incidence (…)

When targeting people at high risk of exposure to HIV infection (i.e., engaging in commercial sex, multiple partnerships, anal sex with high-risk partners, or sex with a person known or likely to be infected with HIV or another sexually transmitted infection), the first priority should be to promote correct and consistent condom use (grifo meu), along with other approaches such as avoiding high-risk behaviours or partners.” (2)

Isso é muito diferente do que o Reinaldão atribui como declaração do especialista:

“Green também afirma que o chamado programa ABC — abstinência, fidelidade e, sim, camisinha (se necessário), que está em curso em Uganda — tem-se mostrado eficiente para diminuir a contaminação.”

Green não advoga que a camisinha só deva ser incorporada à prática sexual “se necessário”. Isso é outra mentira do tio Rei.

Green diz e escreveu que a camisinha é essencial no combate à AIDS. Green faz questão de frisar a importância do preservativo nas campanhas contra o HIV. Isso está registrado em vários de seus artigos científicos, que foram revisados por outros especialistas competentes. É uma fonte muito mais merecedora de crédito, portanto, do que uma entrevista a uma publicação leiga.

Em nenhum momento no texto do Lancet, Green evoca sua hipótese de “compensação de risco”. Porque ele sabe muito bem que se trata de uma idéia que não é corroborada por uma grande quantidade de dados epidemiológicos.

Por que a hipótese de Green não saiu no Lancet ? – não vale dizer que é ”uma revista stalinista comprometida com status quo politicamente correto”.

Foi porque, cientista sério e competente que certamente é, Green sabe que na literatura científica ele estaria obrigado a apresentar evidências de que sua hipótese é sustentada com bom grau de solidez – o que ele não precisa fazer diante de uma jornalista de mídia leiga, incapaz de contrapor conhecimentos técnicos.

Reinaldo Azevedo compra voluntariosamente a hipótese de Green e a eleva à condição de fato cientificamente comprovado, de modo que a declaração papal seja tida como correta.

Pior ainda, ele confunde o leitor, como se as campanhas ABC em Uganda fossem exatamente aquilo que a Igreja Católica preconiza. Não é. A Igreja preconiza a abstinência sexual para todos que não são casados. Não aceita sexo extraconjugal. Isso é muito diferente do ABC. A própria Igreja diz que o ABC, apesar de eficaz, não é o que ela prega aos católicos.

Reinaldo Azevedo mente. Não tem compromisso com a verdade científica. Quer apenas nutrir a patuléia que lota sua caixa de comentários dizendo “pau na petralhada”, “só você é independente e autêntico”, ou “apenas você faz jornalismo corajoso, não comprometido com o politicamente correto”. Aliás, pergunto eu, tem coisa mais politicamente correta do que defender o Papa, custe o que custar?

Se o Papa disser que a bola é quadrada, o tio Rei vai defendê-lo até a exaustão.

Em quê reconhecer que o Papa não é infalível compromete a fé católica? A fé em Deus e nas Escrituras é abalada por reconhecer que o Papa, ora bolas, é humano e também erra? Será que a crença seria assim tão dinamitada, a ponto de ter que recorrer a mentiras e prestidigitações palavrosas?

Conheço tantos católicos, dignos de todo meu respeito e consideração, que dizem mansamente “isso que o Papa falou não é bem assim, isso não é correto” e seguem cultivando tranqüilamente sua fé apostólica romana, tocando a vida pra frente. O que o Papa tem a dizer sobre a camisinha não abala a crença católica deles. Por que o Reinaldo Azevedo é incapaz de um gesto assim?

Seria mais simples se o Reinaldo Azevedo concordasse que, às vezes, o Papa diz coisas
fora da teologia que não são apropriadas, nem que são validadas pela ciência e pelo bom senso. Isso, é certo, significaria menos exibições de malabarismo. Mas seria melhor assim: por mais que eu goste de ver malabaristas, eu prefiro a honestidade às acrobacias ideológicas.


Referências

(1) Edward C. Green, Daniel T. Halperin, Vinand Nantulya, Janice A. Hogle. AIDS and Behavior, Vol. 10, No. 4, July 2006: 335-346.

(2) Daniel T Halperin, Markus J Steiner, Michael M Cassell, Edward C Green, Norman Hearst, Douglas Kirby, Helene D Gayle, Willard Cates. The time has come for common ground on reventing sexual transmission of HIV. Lancet, Vol 364 November 27, 2004: 1913-1915.


PS: Sandra, eu ainda vou escrever sobre o meme. O tio Rei é que não me deixa quieto. Além do mais, o Hermenauta anda sumido e sobra para mim a tarefa de documentar as mentiras dele. O tio Rei é a minha anta também. Ainda vou ter um marcador “reinações dos reinaldinos”, como o Hermenauta.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ainda o aborto ou: durma com um barulho desse




Há algum tempo, li uma crônica de jornal – acho que do Arthur Xexéo – que descrevia uma situação interessante. Era mais ou menos como se segue.

Um grupo de amigos estava em um bar, tomando cerveja, quando um deles diz:

– Estão vendo essa tampinha de garrafa? Pois é. Imaginem que ela seja um botão. Imagine que, se você apertá-lo, você ganha 150 milhões de euros imediatamente, na sua conta bancária. Contudo, simultaneamente, o apertar do botão causa um abalo sísmico em um vilarejo perdido na África, no Burkina Faso, digamos. Nesse terremoto, morreriam todas as pessoas da tribo, umas 150 almas. Não há sobreviventes para contar a tragédia. Em se tratando de um lugar absolutamente remoto, nenhum órgão de imprensa vai noticiar o fato. Ninguém vai ficar sabendo do que aconteceu. Só você, que apertou o botão. E então, você aperta ou não o botão?

O que torna a crônica divertida é a dolorosa verdade que relutamos em admitir: a de que somos capazes de aceitar um grande benefício à custa do sofrimento alheio, desde que isso esteja invisível aos nossos olhos e aos dos que nos julgam. Se eu não vejo, se ninguém vê, se ninguém fica sabendo, se nada vai ficar registrado na história, então eu fico realmente tentado a apertar o botão, matar umas pessoas e ficar zilionário.

Mutatis mutandis, esse é o problema colocado diante de nós pelos métodos anticoncepcionais.

Os cristãos que se opõem ao aborto se atêm a um princípio: a de que a vida começa na concepção. A partir do momento em que há fertilização, há vida e essa deve ser sempre preservada. Isso não se negocia. Não importa se é um óvulo fecundado, um embrião, um feto ou um bebê: em todos há vida, todos são pessoas e, por isso, devem ser ferrenhamente defendidos.

Eis um argumento forte, que evoca o continuum que vai do óvulo fertilizado até o bebê, que seria o mesmo que vai da criança ao idoso. Para os opositores do aborto, em qualquer momento em que se interrompa voluntariamente o processo, incorre-se no assassinato de um ser humano – um ato bárbaro, ignominioso e repulsivo. A lógica é simples, bem fácil de ser entendida.

Mas será que estão todos dispostos a sustentar inabalavelmente essa posição? Será mesmo um ponto irredutível para todos os que clamam pelo valor sagrado desse continuum?

Ha diversas situações em que a defesa intransigente dessa percepção é testada.

O estupro, por exemplo. Se se considera que o óvulo fecundado é um ser humano igualzinho a mim e a você, então a interrupção da gravidez deve ser repudiada inclusive nos casos de estupro. Isso porque, mesmo aí, interromper a gestação também seria um assassinato. A violência, por mais brutal que seja, se torna irrelevante diante do valor da vida de uma pessoa. Quantos se dispõem a sustentar essa posição diante do sofrimento da mulher que foi violentada?

Na prática, contudo, muitos dos que são ferrenhos defensores “pró-vida”, admitem o aborto em caso de estupro. Eis uma prova de que eles também incorrem exatamente naquilo que atribuem como o cerne da perversidade “abortista”: o relativismo moral.

Mas há outro aspecto que desafia a coerência e a inflexibilidade moral de quem entende que o ser humano passa a existir a partir da fecundação: os métodos contraceptivos, especialmente o dispositivo intra-uterino (DIU) e a pílula.

O DIU modifica o ambiente intra-uterino e dificulta a implantação do óvulo fecundado. O DIU tem um efeito pós-fertilização, que “mata” o óvulo fertilizado.

A pílula – e aqui se refere à pílula convencional, não à chamada “pílula do dia seguinte” – também tem um efeito pós-fertilização. O anticoncepcional tem pelo menos três mecanismos de ação (1) . O primeiro, que se considera mais importante, é a inibição da ovulação. Mas existem também dois outros: a modificação do muco cervical, tornando-o mais espesso, dificultando a chegada do espermatozóide ao óvulo e a conseqüente fecundação. O terceiro modo de ação das pílulas é promover mudanças substanciais no endométrio (tecido que recobre o útero), de modo a dificultar a implantação do óvulo fecundado – eis o efeito pós-fertilização da pílula (1) .

Tanto no caso do DIU, quanto da pílula, o óvulo fecundado pode ser expulso pelo fluido vaginal ou pela menstruação. Só que a mulher não vê o óvulo fertilizado sair – é invisível a olho nu. Alguns chamam isso de aborto precoce, micro-aborto ou aborto silencioso.

Mesmo que a ação das pílulas sobre a implantação do óvulo fecundado continue sendo matéria de controvérsia, é importante frisar que o Federal and Drugs Administration (FDA), dos EUA, (provavelmente a mais rigorosa agência de medicamentos do mundo) reconhece a ação pós-fertilização da pílula (3).

A maioria dos pesquisadores admite que a pílula tem efeitos pós-fertilização que podem efetivamente impedir a nidação do óvulo fertilizado, mas a literatura médica não trata esse efeito como “abortivo”. Isso porque a maior parte dos especialistas considera que a gestação começa apenas com a implantação no endométrio.

Contudo, o conceito da ciência não é exatamente a opinião dos cristãos, que consideram que a vida começa na fertilização. Por isso, o especialista em ética médica Walter Larimore advoga que médicos que prescrevem anticoncepcionais estão eticamente obrigados a informar suas pacientes sobre a potencial ação pós-fertilização da pílula (2). A paciente, de posse dessa informação, deve decidir se toma ou não a pílula. O mesmo Larimore não aceita o argumento de que essa informação seja omitida sob o argumento de que a ação sobre a implantação seja um evento raro, pois a maior parte das mulheres que usa pílula não ovula (efeito primeiro da pílula). Na verdade, como ele bem lembra, em medicina o fato de que um fenômeno não seja freqüente não significa que ele seja desprezível (2) : os acidentes anestésicos fatais são raros – 1 para cada 25000 – mas todo anestesista e todo cirurgião fala (ou deveria falar) abertamente do risco anestésico com seus pacientes, no pré-operatório.

Essas informações conduzem a uma pergunta: se ninguém tem certeza absoluta de que as pílulas não impedem o óvulo fecundado de se implantar no útero e que, portanto, não são “abortivas”, por que empedernidos oponentes do direito ao aborto aceitam a pílula? Se há divergências no assunto, como é que eles acomodam pacificamente em suas consciências a possibilidade de terem sido protagonistas de um terrível assassinato?

Ninguém – inclusive eu – gostaria de ter a mínima desconfiança, a mais remota que fosse, de que fui responsável pela morte de um ser humano. Faria de tudo para não deixar que existisse a menor possibilidade de que essa dúvida pairasse sobre mim.

Por que então há tantos militantes pró-vida que toleram o uso da pílula ou do DIU?

A resposta parece estar entre duas alternativas: ou são hipócritas, ou nem eles crêem que um embrião de alguns dias seja tão ser humano quanto um bebê no colo da mãe.

É por defenderem que um microscópico óvulo fecundado seja tão pessoa quanto um neném ou um ancião, que há cristãos fervorosos que se opõem ao uso do DIU e da pílula– é o caso do Júlio Severo e dos médicos do Life Issues Institute ou do Physicians For Life. Chame-os do que quiser – obscurantistas, medievais, fanáticos, etc – mas incoerentes eles não são. Eles assumem integralmente os riscos da posição que defendem.

Se eles têm dúvida se a pílula tem ou não ação abortiva, preferem não usá-la a conviver com o dilema moral de terem cometido um assassinato, mesmo que invisível.

Ou você considera que um minúsculo óvulo fecundado é um ser humano como eu e você, ou você não considera. É sim ou não.

É fácil se esconder na negação de que o DIU e os anticoncepcionais impedem o desenvolvimento dos óvulos fecundados, com perorações do tipo “não vejo a pílula como abortiva”. É cômodo usar a pílula e inflamar-se na defesa “pró-vida” – e dizer fleumaticamente que o impedimento à implantação do ovulo é um aborto, "mas só em um sentido técnico, extremo". Adaptar o conceito que você mesmo estabeleceu, de acordo com suas conveniências, é incoerência, é falsidade.

A única diferença entre o aborto cirúrgico e o impedimento à nidação do óvulo fecundado é que no segundo ninguém vê o “ser humano” ser “assassinado” e expulso, em meio a sangue e lágrimas.

É como na crônica do Xexéu. Aperta-se a descarga do vaso sanitário como se aperta o botão que nos torna milionários. Que mal tem se ninguém vê?


Referências:

1. Frye, Cheryl A. An overview of oral contraceptives – Mechanism of action and clinical use. Neurology 2006;66(Suppl 3):S29–S36

2. Larimore, Walter L. The Growing Debate About the Abortifacient Effect of the Birth Control Pill and the Principle of the Double Effect. Ethics and Medicine. January, 2000;16 (1):23-30.

3. Sullivan, Dennis M.. The Oral Contraceptive as Abortifacient: An Analysis of the Evidence. Perspectives on Science and Christian Faith, Volume 58, Number 3, September 2006.



PS1: Cartas à redação: Se você tem “certeza absoluta” de que as pílulas, em hipótese alguma, impedem que um óvulo fecundado se instale na parede do útero, por favor, não me escreva só para dizer isso. Mande suas evidências incontestáveis a uma reputada revista científica. A ciência e a humanidade agradecem.

PS2: Antes de escrever sobre o meme que a Sherazade me passou, deixo aqui uma amostra do que a caleidoscópica blogosfera brasileira fala sobre o aborto. Há coisas excelentes e outras péssimas. Mas vale a pena ler as diferentes opiniões de quem influencia o debate:


Contra o direito de abortar:

Júlio Severo:
aqui e aqui

Reinaldo Azevedo: aqui e aqui

Olavo de Carvalho: aqui


A favor do direito de abortar:

Diogo Mainardi:
aqui

Rodrigo Constantino: aqui

Idelber Avelar:
aqui e aqui

Hélio Schwartsman:
aqui

sexta-feira, 20 de março de 2009

Como assim, senhor Bispo?

Cena do filme “Jesus Camp”



Ora, ora, ora.

Quando se achava que tudo o que deveria ter sido dito – e não dito – acerca do assombroso caso da menina pernambucana engravidada pelo padrasto, eis que o Bispo Dom José Cardoso Sobrinho concede uma entrevista à Veja, na edição de 18 de março.

Dias depois, o Papa faz uma afirmação equivocada sobre a prevenção da AIDS.

Sinto-me pouco à vontade para comentar textos ou missivas eclesiásticas, publicadas em veículos da Igreja Católica, como o Osservatore Romano. Tais documentos dirigem-se aos fiéis de Roma e devem ser por eles debatidos.

Contudo, quando o Papa deixa de tratar de teologia e doutrina católica para falar sobre um enorme problema de saúde pública que atinge crentes e não crentes, ele está voluntariamente se imiscuindo em um debate em que opinões teológicas se esvaziam diante do que foi comprovado por um série de trabalhos epidemiológicos.

É um dever respeitar silenciosamente um posição religiosa que não é a nossa. Não nos cabe julgá-la.

Mas declarar que a distribuição de preservativos agrava o problema da AIDS não é matéria da teologia ou da fé, é um dado que pode ser objetivamente analisado fora da esfera dos dogmas religiosos.

Quando as declarações papais são repercutidas por um jornal conservador até a medula, “mais ortodoxo do que pijama de listra” e “do que caixa de Maizena” (copyright "Analista de Bagé"), então é porque o Papa, de fato, voluntariamente deixou o espaço em que suas palavras têm que ser respeitosamente ouvidas, por crentes e não crentes.

Semelhantemente, quando um oficial da Igreja fala a uma revista que não pertence à mídia religiosa, ele está convidando não-fiéis ao debate. É nesse espaço, o do diálogo público, cujo primeiro passo foi dado pelo próprio Bispo, que se inscreve este texto.

A entrevista do Bispo é muito boa.

Boa para esclarecer algumas coisas.

Em primeiro lugar, o Bispo revela que tentou, sim, impedir a interrupção da gravidez:

"Nós tivemos várias reuniões com nossos advogados para saber o que poderíamos fazer para impedir o aborto. Pedimos audiência ao desembargador, e ele ligou para várias varas da infância e da juventude para tentar fazer algo. (...)

Quando eu soube do caso, passei o dia todo, das 7 da manhã às 10 da noite, trabalhando na tentativa de evitar a operação. Mais tarde, eu estava me dirigindo ao primeiro hospital onde a menina foi internada, no interior do estado, para tentar convencer a família a desistir do aborto (...)

(...) Então, nós fizemos tudo o que foi possível."

É importante que fique claro o esforço do Bispo em impedir o procedimento. No dia 08 de março, Reinaldo Azevedo escreveu, a propósito do comentário do presidente Lula sobre o caso (“Recentemente vocês viram o problema da menina de Pernambuco. É mais do que absurdo, como é que você pode proibir a medicina de cuidar de uma menina de 9 anos?") :

"Quem foi que tentou impedir a medicina de fazer o que quer que seja?

TRATA-SE DE UMA MENTIRA." (O grifo é do Reinaldo Azevedo)

Pois é.

Reinaldo Azevedo foi desmentido pelas palavras do próprio Bispo, na mesmíssima revista na qual trabalha. O mentiroso foi ele, não o Lula.

A entrevista também é muito boa em ilustrar que sociedade almeja o fundamentalismo religioso.

Uma sociedade em que crianças têm seu espírito crítico e sua razão seqüestrados na mais tenra infância, como diz o Bispo:

“Seria tão bom se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham uso da razão mas já sabiam rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria.”

Nem Schopenhauer explicitou tão bem a maneira como religiosos moldam a consciência de garotos. O filósofo alemão foi mais sutil:

“A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a proteção do governo, das figuras mais respeitáveis e importantes. Mais do que isso, o enorme privilégio de poder gravar sua doutrina na mente das pessoas quando elas são crianças e, com isso, as idéias se tornam quase congênitas.”

Mas o zelo religioso não se ocupa apenas das crianças – e já seria deveras ignomioso se esse fosse seu único efeito colateral.*

O alcance pretendido é muito mais amplo, é reeditar a Genebra de Calvino, é pautar toda a sociedade pelo texto sagrado. É o que diz o Bispo:

"(...) a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. E a lei de Deus não permite o aborto. Então, se uma lei humana está contradizendo uma lei de Deus, no caso, a que permitiu a operação, essa lei não tem nenhum valor."

A Bíblia tem ensinamentos preciosos e passagens muito inspiradoras. Mas desejar que a legislação civil seja submetida às Escrituras é temerário, para dizer o mínimo.

Do contrário, teremos que abolir a igualdade civil entre os sexos (I Coríntios 11:7-9; 14: 34-35; Efésios 5:22-24, I Pedro 3:1), riscaremos do dicionário a expressão “tolerância religiosa” (Êxodo 32:27; Deuteronômio 7:1-5), maltrataremos o estrangeiro (Deuteronômio 14:21), condescenderemos com a escravidão (Efésios 6:5, I Pedro 2:18) e por aí vai...

Mas a entrevista trata, sobretudo, do aborto.

O direito ao aborto é o mais complexo problema bioético que existe. Sua complexidade supera a de outras questões espinhosas, como os transplantes de órgãos e a eutanásia.

Minhas leituras sobre o tema e minhas experiências na medicina não me permitem adotar uma resposta que me seja definitiva sobre o tema. Reconheço como válidos e merecedores de atenção muitos pontos levantados por defensores e opositores ao direito ao aborto.

Sei que o simples fato de ter dúvidas sobre o assunto me expõe aos ataques dos que são contra ou que são a favor do procedimento. Assumo esse risco, não por uma suposta covardia de quem gostaria de ficar em cima do muro, mas por honestidade intelectual.

Contudo, minhas reflexões me permitiram chegar a algumas conclusões que me são bem consolidadas.

Uma delas é a de que é crime o aborto após 12 semanas de gestação, considerando-se uma mãe sadia e cuja manutenção da gravidez não lhe acarrete severo risco de morte. Não o endosso e sou enfaticamente contra sua legalização. (Não me refiro aos fetos anencefálicos – escrevi sobre isso aqui).

Outro aspecto sobre o qual me vejo convencido é sobre o total descabimento do paralelo entre o aborto e o holocausto judeu. Esse argumento, comumente evocado por opositores ao aborto, foi suscitado pelo Bispo D. José – e de forma acintosa:

"Quero lembrar o que aconteceu na II Guerra Mundial. Hitler, aquele ditador, queria eliminar o povo judaico e dizem que ele chegou a matar 6 milhões de judeus. Não podemos esquecer esse delito."

Como assim, senhor bispo, “dizem que” Hitler chegou a matar 6 milhões de judeus ?

É aviltante referir-se ao Holocausto com uma expressão que supõe entendê-lo como um fato de historicidade questionável – assim faz um colega de batina, Williamson.

“Dizem que” a Nike obrigou o Brasil a perder a final da Copa de 98.

“Dizem que” um ET apareceu em Varginha.

Uma referência como essa mereceria uma vigorosa manifestação da comunidade judaica brasileira (sorte do bispo que essa entrevista dificilmente ganhará amplitude internacional, senão, ele teria mais coisas a explicar...).

Além do mais, senhor bispo, Hitler não cometeu um “delito”: ele comandou o morticínio em que foram efetivamente assassinados de forma cruel seis milhões de judeus.

Isso não é um “delito”.

“Delito” é quando o Joãozinho rouba uma laranja na feira.

A Shoah não foi um “delito”. Perseguir, torturar, encarcerar e matar milhões de pessoas é genocídio, é crime contra a humanidade.

Ninguém fala que “dizem que” Hitler tentou aniquilar os judeus e trata o Holocausto como um “delito”, a não ser que não tenha consciência plena do que realmente foi a barbárie nazista.

Ao comparar o aborto à Shoah, o bispo nos leva a questionar quais são as referências éticas e históricas que balizam suas opiniões.

Simone Veil tem referências absolutamente claras: a mulher que capitaneou a lei que legalizou o aborto na França é sobrevivente do mais terrível campo de concentração nazista, Auschwitz, e perdeu os pais e o irmão nos campos da morte.

A jornalista da Veja perdeu uma bela oportunidade de trazer à tona o exemplo de Simone Veil e de perguntar ao Bispo se ele teria coragem de, olhando nos olhos dessa dama de enorme dignidade, dizer que são eticamente equivalentes a interrupção da gravidez em uma menina de nove anos violentada pelo padrasto e o assassinato da família de Veil em um campo de concentração nazista.

Por fim, um trecho tremendamente revelador da entrevista se deu quando a repórter pergunta ao Bispo como se chama a menina vítima do abuso.

Não houve resposta, só um hesitar patético.

"A menina... Como se chama? (A pergunta é dirigida às cinco pessoas que acompanharam a entrevista a pedido do arcebispo; ninguém sabe responder.)"

A escassez de humanismo do Bispo está epitomada no desconhecer o nome da crainça.

A não-resposta é emblemática.

Procurar saber o nome da pessoa é o primeiro passo de quem se dispõe a amar, de quem se abre para um gesto de compaixão. É a preocupação inicial de quem se toca genuinamente pelo sofrimento do outro: quem é o ser que sofre? Como se chama? Qual o seu nome?

Mas, no fundo, o fato do bispo desconhecer o nome da menina não causa estranhamento: para religiosos cegos, a estrita aplicação da lei divina está sempre acima do ser humano, nem que este esteja submerso na mais terrível dor, no mais tenebroso drama pessoal.


* PS: Nunca um documentário me causou uma perturbação tão acachapante quanto Jesus Camp, uma produção norte-americana de 2006 sobre a doutrinação infantil, entre evangélicos dos EUA. Por razões que podemos imaginar, um filme como esse nunca passaria no circuito de cinemas brasileiros. Veja aqui uma amostra desta bomba.








domingo, 8 de março de 2009

Viagens e memória: o novo mundo


Alpes, inverno de 2009



Chegar até o banco, ali, no terraço da lanchonete. Encostar os esquis na parede. Esticar as pernas, soltar as alavancas que apertam as botas, tirar as luvas. Respirar profundamente. Pedir um vinho quente. Aspirar a fumacinha que sai do copo, sentir o calor entrar pelas narinas, com cheiro de canela e de uvas. Deixar que o copo fumegante esquente as mãos. Só depois sorver a bebida, bebericando-a. E então soltar meus olhos, para que, livres, flanem pelos Alpes e pelo vale coberto de neve. Sim, é bom estar aqui, é bom estar vivo.

O corpo suspira, inteiro. A tarde de esqui lhe cobra em músculos crispados, em joelhos esgarçados, em carnes doídas. E ainda haverá uma pista a ser vencida até chegar ao teleférico que me levará de volta a Chamonix...

Olho o relógio. Falta cerca de uma hora e meia para que a estação feche: o tempo que me resta para descer a montanha e entregar à loja o material alugado. Depois, é seguir para o hotel, arrumar as malas e dormir. Partimos amanhã cedo.

Esta será minha última aventura no esqui, neste inverno. Última. Odeio esta palavra. O último gesto, o último beijo, a última pelada com os amigos. É sempre assim: na véspera de deixar uma cidade, a palavra "última" me é insinuada, com toda sua terrível carga de inexorabilidade, de fatalismo, lembrando minha finitude de vivente. Última vez que esquio? Última vez que contemplo os Alpes? Último vinho quente?

Melhor então saborear os goles que me restam no copo. E perder o olhar nas escarpas dos Alpes. Deixar-me seduzir pelo balé dos esquiadores que deslizam nas montanhas, em movimentos velozes e elegantes. Aceitar abertamente o convite da paisagem, encantar-me com o luminoso azul do céu que escorre pelo branco das montanhas, até inundar a cidade, encravada no fundo do vale.

Daqui do alto, Chamonix parece uma pequena maquete no saguão de uma imobiliária. De longe, todas as cidades parecem maquetes de agentes imobiliários. Não há uma casa sequer fora do lugar. Os telhados cobertos de neve. Os teleféricos que se mexem, brinquedos de crianças. A fumacinha que sobe das chaminés.

Chamonix não me pertence, nem mesmo ao meu olhar. Também não sou dela. O frio intenso, a neve, o aperto dos dedos dos pés nessas botas de esqui, tudo me lembra que não pertenço a esta paisagem. Na velocidade no esqui, às vezes não percebo ser eu quem esquia. É como se eu fosse um personagem de videogame de última geração, controlado pelo joystick de um jogador. (A julgar pelos tombos que levo, ele deve ser um péssimo jogador.)

Tudo é estranho para mim, mas eu também sou estranho a esse lugar.

Viajar talvez seja isso: colocar em contato a estranheza do mundo com a estranheza de mim mesmo. E, desse contato, minha paisagem interior se descerra um pouco mais aos meus olhos, revelando idiossincrasias e meandros desconhecidos. Camus tinha razão: “Sem os cafés e os jornais, seria difícil viajar. Uma folha impressa em nossa língua, um lugar, onde, à noite, tentamos nos comunicar com os homens, permite-nos imitar, com um gesto familiar, o homem que éramos em nossa terra, e que, à distância, nos parece tão estranho. Pois o que dá valor à viagem é o medo. Ela quebra em nós uma espécie de cenário interior.” 1

O estranhamento vem do diferente, da ausência de referências a que se agarrar. E a implícita constatação do distinto exterior remete a identificarmos em nós mesmos aquilo que, de fato, nos faz diferentes e estranhos ao que nos rodeia. Viajar é se conhecer.

Ítalo Calvino esclarece: “Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.(...) Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e não terá.” ²

Daí o medo: há quem não suporta contemplar a si mesmo. São os que viajam para lugares distantes de sua terra e, uma vez chegando, tentam ser exatamente o que são nas suas cidades de origem. Evitam assim o estranhamento de uma geografia e de uma cultura distintas, desviam o inevitável olhar sobre si mesmo. Outro dia, vi uma turba de turistas americanos entrando em um McDonald’s em Paris. O medo de conhecer o diferente os fazia buscar o conforto de uma referência doméstica.

São os turistas que lotam dúzias 747s e atravessam o oceano apenas para colher exemplos para ilustrar o olhar simplório e preconceituoso com que vêem outros povos. Nada de descobertas, de encontros inusitados e enriquecedores. São os que viajam apenas para compilar anedotas a serem contadas aos amigos: “argentinos são mesmo mal-educados”, os “franceses porcos e arrogantes” e por aí vai. Gente assim não deveria nem ter passaporte. Onde está meu bloquinho de notas? Preciso anotar isso, para não me esquecer: quando me tornar ditador do mundo, vou tomar o passaporte de quem chega a Paris e vai comer no McDonald’s.

Outros turistas se atêm tão fortemente às suas próprias referências fundamentais que sucumbem na síndrome de Stendhal... Droga, cá estou eu pensando em neurologia de novo, nem no feriado... A taquicardia, os suores frios, as alucinações, o desfalecimento ante à contemplação do objeto de grande significado pessoal. Dostoievski teve esses sintomas, diante do quadro "O Cristo Morto", de Holbein. E aqueles turistas, sem quaisquer antecedentes psiquiátricos, que vão à Terra Santa e surtam, achando que são o Messias? Bom, pelo menos os hospitais israelenses já estão acostumados a atender a essa gente. Conheço uma dúzia de pessoas que podem entrar em mania paranóide se visitarem Jerusalém. A mente humana é mesmo um troço interessante, tem cada coisa... Muita gente doida. Por via dúvidas, melhor eu continuar sem conhecer Liverpool. Vai que eu chego lá e surto, achando que sou a reencarnação do George Harrison?

Certo: não viajam, nem conhecem, nas acepções profundas dos termos, quem tem suas próprias visões de mundo como imutáveis, quem já classificou todos os países, povos e lugares em um idiota almanaquezinho íntimo. Mas Camus e Calvino tinham suas razões. É a partir das minhas referências de leituras, de minhas vivências, das minhas identidades, que o local visitado ganha sabor e sentido. “Para distinguir as qualidades das outras cidades, devo partir de uma primeira que me permanece implícita”². Aproveita verdadeiramente a viagem quem atribui ao que vê, ao que escuta e ao que come, um sentido pessoal, uma memória afetiva. Só após termos nos apropriando das nossas memórias é que podemos descobrir e conhecer uma nova realidade, e dela nos apoderarmos.

Em Chicago, o blues e o jazz tocavam me acompanhavam por onde quer que ia. Nas trilhas de Mata Atlântica, em Itacaré, passeei por um quadro de Debret. Em Brasília, andando de carro naquelas largas avenidas, entendi por que foi naquela cidade monumentalmente silenciosa que germinou a mais brilhante geração do rock nacional. Aqui, diante dos Alpes e do Mont Blanc, filosofando nestas digressões, sinto-me como Hans Castorp, no sanatório de Berghof, na sua Montanha Mágica... Mas a neve que cobre tudo é também Hoth, a lua gelada em que se dá o poderoso ataque imperial contra a resistência rebelde, na primeira seqüência de O Império Contra-ataca...

Então, viajar, conhecer outras cidades e outras gentes é viajar pelas próprias lembranças? Sim, essa foi a conclusão do Grande Khan ao ouvir os relatos de Marco Pólo: “Portanto, na realidade a sua é uma viagem através da memória! (...) É para se desfazer de uma carga de nostalgia que você foi tão longe.”²

Por que então viajar? Por que saí da minha casa, peguei a estrada, viajei muitos quilômetros, enfrentei o frio e subi mais de 2500 metros se era apenas para revisitar minha memória?

Porque a magia de viajar está nessa alquimia de recordações e referências pessoais, que ganham inesperadas luzes à medida que dialogam com o novo descoberto: novas e lindas memórias que se formam. “De uma cidade, não aproveitamos suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas.” ² É a minha cartografia afetiva que se expande, que ganha novas cores, novos sons. O novo mundo que se descortina, no deslumbramento do largo da sinfonia de Dvořák.

Começo a cantarolar a melodia de Dvořák. Pouso o copo na mesa. Minhas mãos levitam e se mexem, regendo a orquestra que está bem ali, no sopé do Mont Blanc.

O olhar de relance sobre o relógio me quebra o transe musical. É hora de apertar a bota, vestir as luvas, calçar os esquis e descer a montanha nevada. Deslizar na rampa de gelo, ouvindo a sinfonia que continua a me ecoar. Perder-me novamente no branco infinito...


PS: Escute o largo da 9ª Sinfonia de Dvorak (“Do Novo Mundo”), na execução da Orquestra Filarmônica de Viena, sob a batuta dele: Karajan.

Não encontrei o largo em um vídeo único, apenas em duas partes. Sinto muito, mas é só clicar na segunda parte assim que se encerrar a primeira. Escute no volume máximo.







1. Albert Camus: "Amor pela vida", in : O avesso e o direito

2. Ítalo Calvino: As cidades invisíveis